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Opinião: Show do Coldplay em São Paulo

Difícil falar sobre Coldplay e não citar seus conterrâneos do Radiohead. Principalmente, quando o último grande show assistido, antes do grupo de Chris Martin, é justamente o “concorrente” liderado pelo gênio (já apontando a minha preferência) Thom Yorke.

Fato é que, apesar de, publicamente, Martin sempre admitir a influência da banda mais velha – o grupo de Yorke lançou seu primeiro CD em 1993, quase dez anos antes de “Parachutes” – nunca encontrei tantas semelhanças nos dois grupos, se não o falsete, muito utilizado pelos dois vocalistas, a qualidade inquestionável dos backing vocals (Will Champion e Ed O’Brien) e certa melancolia em algumas melodias. Ah, é claro, a postura politicamente correta dos dois líderes, sempre pregando a favor do planeta ou de outras causas sociais.

Há alguns anos, especificamente, nos dois últimos CDs, o Coldplay vem se distanciando do Radiohead, principalmente, no que diz respeito à letra (para mim, isto representa a maior parte da música). Enquanto a banda formada no interior da Inglaterra continua preferindo o pessimismo ou a ironia (“Don’t get any big idea, they’re not gonna happen”, canta Yorke em Nude, por exemplo), mostrando como a banda enxerga o mundo, entre outros defeitos, hipócrita, o grupo londrino aposta cada vez mais no otimismo, na paz, na esperança (“And I have no doubt one day the sun will come out” da faixa Lovers of Japan). E se Radiohead ainda surpreende musicalmente, com um som mais difícil e único, Coldplay até busca mudança, mas buscando mais o épico. E neste ponto – e na popularidade – está mais pra U2 que qualquer outro grupo.

Agora, fica fácil entender aonde quero chegar: o quarteto inglês, que passou pela capital paulista nesta última terça-feira está, hoje, muito mais para o quarteto da ilha ao lado, do vocalista Bono Vox, do que para o Radiohead. E foi com tal expectativa que cheguei ao Estádio do Morumbi, por volta das 19h.

Quando entramos – meu irmão, eu e suas respectivas esposas – a banda Vanguart já estava no palco. Foi impossível não lembrar de Los Hermanos (influência perceptível no som dos garotos de Cuiabá) abrindo o show para Radiohead (que inspirou… bem, vocês sabem). Fiquei surpreso com o estádio relativamente vazio, mas logo me lembrei da cidade em que moro, e seu trânsito, e imaginei que o cenário mudaria até a atração principal. Só não sabia o quanto. Depois do show dos cuiabanos e da meia dúzia de músicas da banda Bat for Lashes (liderada por uma aspirante a Björk, só que menos… Björk), o estádio do São Paulo Futebol Clube foi lotando até, já próximo da apresentação do Coldplay, estar completamente cheio, inclusive no acesso as pistas.

Alguns minutos após as 21h30min, horário marcado para o início do show, o quarteto estava no palco. Depois de duas faixas do álbum mais recente “Viva La Vida”, a banda acertou ao tocar, sem a menor preocupação em faltar ânimo para o resto do show, seus três maiores sucessos, “Clocks”, “In My Place” e “Yellow”. O grupo também fez questão de apresentar novas versões de canções mais conhecidas, ora de maneira interessante (“Shiver”) ora brilhante (“The Hardest Part”) ora desnecessária (“God Put Smile Upon Your Face/Talk”). “Lovers in Japan”, o sucesso “Viva La Vida” (o “ô ô ôô” da música foi repetida diversas vezes pelo público, nas pausas, durante a música e ao fim do show), “Life in Technicolor II” e as antigas “The Scientist” e “Politik” completam os grandes momentos da noite.

O quarteto, apesar de alternar bem as canções mais conhecidas com as (um pouco) menos conhecidas, errou quando optou sempre ficar no limite. Deixando mais claro: em vez de deixar aquela vontade de “quero mais” em alguns momentos, exageravam, trazendo a sensação de “tá bom, né?”, como na segunda metade do show, quando foram para mais perto do público, num pequeno palco no meio do estádio. Mesmo com a excelente “Shiver” e o momento descontraído dos parabéns (era aniversário do vocalista), esta parte poderia ter sido menor.

No que diz respeito à banda, no final das contas, apesar de algumas falhas, o saldo foi positivo. Como esperado, os ingleses esbanjam carisma – a exceção do baixista Guy Berryman, de poucos sorrisos. Especialmente, o frontman que, como um bom visitante, fez questão de dizer algumas palavras em português (um clichê educado), dançou, deitou na passarela, improvisou no piano. Champion, o baterista, que cantou os parabéns para o líder, também é uma simpatia. A direção de arte estava bela, com direito a telões revezando com belas paisagens e efeitos ou imagens dos integrantes – erraram no tamanho, muito pequeno –, fogos de artifício, chuva de borboletas, fora as clássicas bolas amarelas no grande sucesso “Yellow” passando por cima dos que estavam na pista.

Outro grande destaque da noite, infelizmente, foi a péssima equipe responsável pelo som. E isso estragou muito a noite. Diversas vezes, notava-se uma oscilação no áudio do microfone dos integrantes e nos seus instrumentos. Sem falar que estava extremamente baixo para um local daquele porte. A título de curiosidade, minha sogra mora praticamente ao lado do estádio e não se incomodou com o som – ao contrário, segundo ela, do AC/DC que parecia tocar na garagem de sua casa.

Enfim, dois anos depois de trazer menos de 10.000 pessoas ao Via Funchal, os ingleses deram um salto no sentido de popularidade e lotaram um estádio com 65 mil presentes (segundo o UOL). E isso é, de certa maneira, um mérito. Falta ainda, no entanto, um pouco de maturidade a banda, para cortar alguns caprichos. Talvez se definirem mais, se pops, se alternativos. Particularmente, prefiro o início da banda. Então, neste caso, quem sabe, amadurecer significa voltar as origens.

Como a própria personalidade do grupo, o show ficou no meio termo. Diria satisfatório, pouco acima da média, sem a extrema qualidade do Radiohead (que tocou para metade do público no ano passado) numa impecável apresentação nem o espetáculo (melhores som e setlist) que foi o U2, no mesmo lugar, em 2006. Mas ainda assim, uma bela noite.

SETLIST:

Life In Technicolor
Violet Hill
Clocks
In My Place
Yellow
Glass Of Water
42
Fix You
Strawberry Swing
God Put A Smile Upon Your Face/ Talk
The Hardest Part
Postcards From Far Away
Viva La Vida
Lost!
Shiver

Parabéns para você/Happy Birthday
Death Will Never Conquer
Don Quixote
Viva La Vida (remix)

encore:
Politik
Lovers In Japan
Death And All His Friends

encore:
The Scientist
Life in Technicolor 2
The Escapist

P.S.: Ao fim, como prometido durante o show, foi distribuído aos presentes, um CD com nove faixas. Um gesto bonito, principalmente, se levar em consideração os elevados valores dos ingressos (que iam de R$180 a R$600).

Fontes:
Setlist: VivaLaColdplay.com
Foto: JCorreio

Um Ano de Sofia!

Eu devia ter entendido o sinal, no dia 11 de junho de 2008, quando descobrimos que nos tornaríamos pais, e curiosamente mantive a calma, com um gostoso ar de felicidade, mesmo as circunstâncias apontando um caminho difícil. Muito difícil. Só podia ser uma coisa boa. Mais do que isso, só podia ser a melhor coisa da nossa vida. E pouco mais de sete meses depois, vimos, era, de longe, o momento mais especial que vivemos.

Há um ano, nascia Sofia. Há um ano, me tornava, na prática, um pai.

Sou bem emotivo, não é novidade, justamente por isso fiquei surpreso quando, mesmo com a Sofia no meu colo pela primeira vez, poucos segundos após seu nascimento, nenhuma lágrima me veio aos olhos. Talvez aquela bagunça de sentimentos e pensamentos (todos bons) não me deixava entender tudo aquilo. Somente depois, quando a minha saída da sala de parto foi obrigatória, ao entrar no vestiário da maternidade, foi que desabei. Literalmente. Minhas pernas bambearam, tudo ficou branco e sentei, chorando. Agora, era pra valer.

Acredito que o processo de ser pai começa neste momento, o do nascimento – diferente da mulher, que parece nascer já sabendo como é ser mãe. Claro que muito se resgata da memória. Atitudes que devem ser copiadas do pai, outras, ignoradas, outras, aos nossos olhos, “atualizadas”. Personagens, livros, filmes, amigos, irmão. Tudo é útil, mas não é uma receita de bolo, que se seguida ao pé da letra chega a um resultado satisfatório. É uma vida. Uma vida começando do zero. Uma vida na nossa mão.

Pude perceber – e a partir deste ponto falo só por mim, afinal de contas, se não posso mensurar o meu sentimento, imagine o da mãe – a grande mudança que estava por vir logo nos primeiros dias, ali mesmo, na maternidade, quando a filhinha engasgou e, novato que era (e ainda sou), me desesperei, correndo com ela no colo, do jeito que estava, até a enfermeira, que não estava lá. Os segundos que demoraram pra funcionária aparecer pareceram horas. Era uma dor diferente. Não era aquele aperto no coração que dá quando termina um namoro, quando se decepciona com alguém, quando muda de cidade. Era algo totalmente novo. Cortante, assustador. Lógico, foi só um susto. E muitos destes vieram.

Se em se tratando de dor, as palavras são insuficientes, na alegria também é assim e fica impossível não apelar para o superlativo. Do primeiro sorriso às primeiras mudanças, que, por sinal, são perceptíveis a olho nu e acontecem diariamente. Cada aprendizagem tenho vontade de contar a todos os vizinhos, amigos e inimigos a novidade. Arrancar um sorriso da Sofia é o melhor exercício. Não me canso, não ligo se alguém está olhando. Se para um sorriso de canto de boca da guria eu precisar pular e gritar feito um louco, eu faço. Se para ela gargalhar, eu precisar me machucar um pouco, também. Não sou um pai coruja. Ser pai é ser coruja.

A minha felicidade depende inteira e diretamente da felicidade da Sofia.

Eu acho engraçada a relação do pai com a filha, principalmente nos casos dos moradores de São Paulo (ou qualquer outra metrópole), que são empurrados pela correria da cidade grande, fazendo os momentos com a família cada vez menores. Saio de casa às 8h, 9h da manhã (pra alguns, ainda sou sortudo), e só chego 12 horas depois. Então, a correria me faz parecer um mero coadjuvante na vida dela, porque ao chegar do trabalho, a moça já está quase nanando. (Um pequeno desabafo antes de continuar.) É triste ver como a sociedade menospreza o sentimento do homem quando pai. Por exemplo, quando a Sofia passou 11 dias no hospital (os piores momentos da minha vida) por conta da meningite, era comum ver as pessoas no trabalho falarem comigo que a mãe devia estar sofrendo muito, como se eu, o pai, me preocupasse mais com o servidor de e-mails que estava muito lento.

O menosprezo pelo lado paterno se comprova na licença paternidade, meros quatro ou cinco dias, vulgo nada, se comparar aos seis meses da mulher (penso que o ideal seria um ano para ela). Não, não acho que os pais deveriam ficar meses parados, mas com cinco dias, mal vi a guria, sem falar que passei três destes na maternidade – sorte que peguei um dia de folga. Uau! Como consequência do fato de ser coadjuvante, a relação da filhota comigo é quase unilateral. Pouco me difere, por exemplo, do cunhado ou de alguma amiga que visita a Sofia enquanto estou no trabalho. Mas isso vai passar. Dizem.

Tudo muda na vida de um recém-pai. Prioridades, objetivos, valores. Suas roupas, que antes eram sempre poucas, agora você pensa que são muitas, enquanto o guarda-roupa do filho sempre precisa de alguma novidade. E estou citando algo bem supérfluo. O seu mundo, suas necessidades se ajustam de acordo com a vida da criança e, o melhor, você não só não importa como se orgulha e faz com prazer. E o retorno disso é infinito – literalmente. Seja num sorriso, seja aprendendo a andar (ela está quase lá), quando dorme, quando acorda com o cabelo bagunçado e já sorrindo, quando fica tão feliz que parece que vai voar, quando formula frases do tipo “agluba bê ba pah”, quando dá tchau ou quando não faz nada.

Seu filho é você melhorado. É você corrigido. É o melhor de você. E ver isso todos os dias te faz instantaneamente querer ser uma pessoa melhor.

Só entende que não há exagero nas minhas palavras quem vive isso. Acho estranho quando encontro alguém que não quer ter filhos. Respeito, mas se soubessem o que estão perdendo, com certeza, pensariam diferente. Ou então o mundo está mais egoísta (e burro) do que nunca.

Finalizando, acho importante tirar qualquer dúvida sobre a minha admiração à mãe. Se estiver procurando uma boa maneira de ser pai, a melhor é tentar, ao máximo, se parecer com a mãe é o mínimo que posso dizer. É mágica a relação, principalmente nesta fase da vida da criança, entre mãe e filho.

Planejei um post para cada dia da semana passada e, como tantas outras coisas que não saem como planejo, não deu tempo – nem sequer consegui terminar o texto na data correta (dois dias atrás). Mas nem sete nem mil posts seriam suficientes para tentar expressar a felicidade de ser pai ou a importância desta guria na minha vida. Só queria deixar registrado, mesmo de forma simples e pequena, este dia, o primeiro aniversário de Sofia. E que ela seja a pessoa mais feliz do mundo e que faça tantos outros felizes. Eu sei que fará. Logicamente, não tanto como já faz o papai babão e a linda mamãe. E obrigado ao Papai do céu por colocar essa guriazinha na minha vida – eu realmente não mereço.

Parabéns, Sofia.

A Saga dos Dentes: Parte I – Ô Garoto Sortudo

Há alguns anos, uma baiana (não no sentido pejorativo, o qual não utilizo, justamente por gostar deles e de sua terra que morei por muitos anos) mexeu em dois de meus dentes. Como certamente citarei até o fim do texto, a esta mulher darei o nome de Meneghel. Eram pequenas cáries, nada muito sério. Anos mais tarde, descubro que as duas obturações foram mal feitas, e que aqueles dois pequenos “arranhões” viraram não só uma cratera, mas duas cidades de tártaros e outros derivados que, se não fossem descobertos a tempo, estariam dominando este pequeno corpo, o meu.

Na verdade, descobri isto em duas vezes (com juros altíssimos). Dente A: a dor de dente, como o nosso amigo Murphy (aquele da lei) deixou bem claro, só acontecerá quando estiver o mais distante possível de um especialista e na hora mais inadequada. Obedecendo rigorosamente estas regras, a dor veio às 2h, quando morava no Capão Redondo, sem carro, sem transporte público e com o consultório 24 horas mais próximo sendo na Rebouças (a uns 20 km de distância). Após muita dor e muitos, inclusive alguns novos, palavrões, a noção havia sido perdida, então, liguei para uma amiga muito próxima na época, pedindo que me buscasse em casa.

Por algum motivo, não me lembro qual (provavelmente, algo que envolva a frase “cala a boca, Fagner, não vou aí de jeito nenhum, seu folgado!”), tive que esperar até o amanhecer. Tentei dormir. Sem sucesso, fui procurar uma farmácia mais próxima a pé. Encontrei uma que era tudo, menos próxima, e comprei um remédio pra “muita dor” que me fez dormir até a tão aguardada carona para o consultório no bairro do Paraíso. A plantonista deixou o dente aberto, informou que deveria fechar, com algodão, apenas quando fosse comer (já vomitou?) e que eu deveria procurar um especialista em… canal, o temido e odiado canal.

O “especialista” encontrado deve ter sido aluno de Meneghel. Comecei a perceber quando o dente quebrou (isto mesmo: quebrou) ao comer um pão (e não era o italiano) na casa do meu sogro no primeiro semestre deste ano. Fui ao consultório 24 horas na Rebouças que deu uma aliviada até encontrar uma data num endotólogo (endotologista?). Antes porém, dias depois, o dente quebrou em mais um pedaço. Onde? Onde? Em Manaus. “Mas Manaus é uma capital, deve ter um dentista decente, né?”. Né não! Perguntei isto a um colega que trabalha na cidade (que é mais quente que o verão no inferno) e foi como se tivesse contado uma piada – daquelas bem boas. Pela gargalhada e pelo comentário “vocé é doido, prefira sua dor a colocar seus dentes nas mãos dos açougueiros daqui”, resolvi esperar até chegar em São Paulo.

Para contar o segundo caso, é necessário um rápido flashback. A desgraça causada pela Meneghel foi descoberta por uma dentista em Minas Gerais, na época em que eu morava lá, que fez o canal. Voltando aos dias atuais… o dente B “gritou” (a ponto de doer a cabeça inteira) a caminho de Naviraí, cidade do interior do Mato Grosso do Sul onde meus pais agora vivem. Ao olhar, percebi que se havia criado uma bolha na minha gengiva (não vou falar o conteúdo desta pra você não passar mal) e me toquei que a mineira era uma impostora. Obviamente, não aceitavam o meu plano naquela inóspita cidade, mas se para amenizar aquela dor minha única opção fosse vender os dois rins, eu o faria. Novamente, abriram meu dente e estava confirmado: a mineira era a mais fiel discípula de Meneghel.

A Saga continua…

Sobre o que a gente gosta

- Aceita, Fagner?
Disse um amigo meu, com uma pastilha de canela na mão.
- Não, muito obrigado.
- Ele não gosta de canela.
Disse a amiga ao seu lado, que me conhecia há alguns segundos a mais.
- Sério? Vamos fazer um “whattahell” (coloque aqui uma palavra que você nunca ouviu antes e não conseguiria soletrar). Duvido se ele não vai gostar.

Calma, não farei um post com um diálogo gigante de novo. O Rob Gordon faz isso da melhor maneira. Venho compartilhar uma verdade: “gosto é que nem nariz, cada um tem o seu” é, na realidade, uma maneira de dizer que há o gosto certo e o gosto errado.

Sei que é a frase acima é auto-explicativa, mas darei alguns exemplos. Algumas pessoas preferem filmes bons, outras gostam de roteiros assustadores. Tem aquele que gosta de livros bons e tem aquele que gosta dos mais chatos e previsíveis – sem citar aquele que lê os escritos de auto-ajuda, como se fossem livros. E, dizem, temos em nosso mundo pessoas que gostam de Simple Plan e Dani Carlos. Duvido, mas já ouvi falar. Em resumo, alguns preferem as coisas boas, outros, não.

Ou você realmente pensa que alguém acha o picles delicioso? O que dizer daquele pequeno empresário que lê Lair Ribeiro? E daquela adolescente emo que lê ou assiste (várias vezes) a saga “Crepúsculo” e ouve Pitty no caminho pra escola. Não vim aqui desmenti-los. Eles gostam dessas coisas, de verdade, mas por causa de um distúrbio psicológico que causa esse interesse pelo pior de tudo.

É bom deixar claro que não quero desmoralizar o gosto do próximo. Apesar de não entender essa gente que ama pizza de rúcula ou saladas de acelga, chicória e suas irmãs, respeito e admiro esse sacrifício em prol da eliminação de substâncias com péssimo sabor. Neste caso das verduras, já tentei apelar para a conscientização ambiental como solução menos dolorosa, deixar o mundo mais verde. Não adianta. Esse tipo de pessoa é insistente e quer de todo jeito manter essa autopunição de se alimentar mal, como se fosse uma alternativa de se livrar dos pecados cometidos.

O que é inaceitável é este aprendiz de mártir querer me convencer a aceitar sua causa. “Não, você não gosta só porque nunca provou a empadinha de ricota da minha mãe”. Em primeiro lugar, sobre a ricota – que apareceu pela primeira vez nos campos de concentração onde Hitler dava aos judeus que pensavam ser um tipo de queijo – não há substância terrestre que tenha pior sabor, competindo de igual pra igual com a jurubeba e o temido jiló. Em segundo, só porque mudam o recheio ou a cobertura, essas matérias não perdem seu dote lesivo. E em terceiro, já viu um suicida tentando convencer seus amigos que se matar é gostoso? “Ei, gente, é sério! Sobem aqui e pulem comigo. Não vão se arrepender”.

É como se quisessem provar que Edson e Hudson fazem uma bela música. E entramos, agora, em um terreno perigoso para alguns, porque aqui encontramos a clara diferença entre o correto e o torto. Dias atrás um taxista me contou uma teoria interessante: “você descobre se uma música é boa quando você consegue assobiar”. Após eu responder com um amistoso “aí o senhor não faltou com a verdade”, vi que a ideia, apesar de falha em alguns pontos, fazia sentido. Ao sair do taxi e me certificar de que não havia ninguém por perto, tentei assobiar um funk carioca. Nem precisa tentar, prometo, é impossível. Tentei com hip-hop e até algumas canções emocores, todas inassobiáveis. Sei que há rappers com conteúdo, boas letras e crítica social, e eu respeito, mas alguns ruídos deveriam se encaixar em outra arte (a 90ª, quem sabe) que não música. Já funk, axé, pagodes e derivados não são arte nem aqui nem em nenhum universo paralelo. Menos mal que boa parte dos seguidores destes estranhos sons têm noção disso, e confirmam o que estou dizendo: “ah, eu sei que é tosco, mas eu gosto de dançá”.

A música e o cinema batem o martelo nesta questão. Este, como aquele, tem uma característica em comum: os penitentes, geralmente, não só escolhem o pior como odeiam que é bom. Explicando: se ao se tratar de comida, eles apreciam um delicioso churrasco pra, em seguida, tomar alguma sobremesa com os funestos cravo e canela, no cinema é capaz de encontrar um blasfemo dizer que “O Poderoso Chefão” é chato enquanto assiste a alguma fita de Michael Bay. Ou mesmo desconhecer Daniel Day-Lewis e citar todos os filmes de Robert Pattinson. Sem falar nos profanadores que dizem não ter paciência com filmes… Vou beber água com açúcar e já volto.

Bom, tentar compreender a preferência pelo mau gosto é de uma complexidade infinita. A opção pelo ruim está em todas as pessoas, como uma praga. Alguns, claro, em doses cavalares. Outros, em menor escala, como um suco de cupuaçu ali, um gomo de jaca acolá, que a natureza entrega especialmente para meia dúzia de pessoas, entre elas esta que digita. Portanto, gosto pode até ser como o nariz, o problema é que este, de vez em quando, tem o prazer no fedor.

Rapidinha: Cinema Franco Returns

Okay, eu sei que foram apenas alguns dias. Eu sei que não postava com tanta frequencia, assim, a ponto de ficar preocupado com a falta de atualização no Cinema Franco em cinco dias (já fiquei meses sem postar). E, sim, eu sei que não escrevo (tão?) bem.

Mas também sei que, R$19,45 depois (cotação estranha esta do WordPress, viu!?), meus olhos brilharam quando entrei no Blog e vi, novamente, a página como um administrador. Pronto para postar – ou mesmo pra não atualizar, mas por vontade própria ou por falta de criatividade mesmo.

Já dizia uma música de pagode* dos anos noventa que é “preciso (quase) perder pra aprender a valorizar” (tosco-mor), então, vou dedicar maior tempo a este humilde blog. Mantendo-o como um hobby, continuando com meus monólogos (ou tem alguém lendo isto aqui?), crônicas, críticas e afins.

Um grande abraço e dois tapinhas nas costas!

*Apesar do ódio mortal pelo pagode, não pude evitar, em meus anos de internato, muitos colegas de quarto ouvindo pagodes e axés. Provavelmente, meus problemas psicológicos surgiram a partir dali.

Como se Livrar de um LG (ou Como Ser Assaltado e Sair no Lucro)

Há exatos 9 meses, comprei um celular. Como estava com o nome “sujo”, tive que usar o nome de minha querida esposa. Pegamos o plano 70 minutos (mais tarde, eu mudaria para o de 90) e, como bônus, paguei incríveis R$5. Surpreso fiquei quando, dias após a compra, descobri que o valor pago havia sido muito alto; o aparelho foi a pior coisa que me aconteceu. Só para constar é um LG, modelo KM380.

Alguns meses atrás, fui na Claro – que, como as outras operadoras, também é um lixo – e descobri que dia 30 de junho (hoje), após nove meses de celular, poderia trocar de aparelho com aquele desconto do plano, sabe? Mas estava com um problema: o que faria com este celular que “sobraria” em minhas mãos? Passar para Tati, minha mulher? De jeito nenhum. E nem a qualquer amigo. Nem colocaria no Mercado Livre, correndo o risco do cara descobrir o pepino que comprou e me entregar a polícia.

Pra minha felicidade, ontem, um dia antes da troca do celular, fui assaltado – pela primeira vez na vida.

- Parado aí, moleque! Não grita, não faça nada.

Ouvi do nada. Era um rapaz mulato, de boné e jaqueta, que só pode ter saído da parede, próximo ao restaurante Gaia na Vila Olímpia. Cheguei a esboçar 2/3 de um sorriso, pensando que era um amigo do trabalho que havia saído minutos antes. No último terço, percebi o que estava acontecendo e voltei o meu rosto a sua feição mais tranqüila possível. Principalmente, quando vi que o moço parecia nervoso e portava uma arma ou algo bem parecido – não era o momento mais oportuno para tirar esta dúvida. Ladrão inexperiente e nervoso + arma + “cliente” também nervoso = merda.

- Calma, calma. O que você quer?
- Me passa a mochila com o notebook!

Como se toda mochila, por default, tivesse um notebook. Retirei minha mochila das costas e entreguei em suas mãos.

- Só tem livro e agenda aí dentro, cara, pode abrir.
- Não quero abrir.

Apressado, apalpou o objeto e, pra minha felicidade, me devolveu. Lá estava um recém-comprado “Nova York – A Vida na Grande Cidade”, de Will Eisner. Apesar de estar comigo e ser meu, é um presente que meu irmão me dará.

- É…é… (sim, ele gaguejou) então, me passa o celular!
- Claro.

Neste momento, me toquei do momento que havia vacilado. No caminho, minutos antes, estava tentando colocar uma música pra ouvir de volta pra casa. “Tentando”, porque o péssimo aparelho, para ler o meu cartão de memória, demorava aproximadamente 5 desligadas, 2 tapas e um Ave Maria. Não havia conseguido colocar a música, mas mantive o fone nos meus ouvidos, só pra atender ligações mesmo. Retirei o cabo do fone e entreguei ao corinthiano.

- Poderia devolver o chip? Dá um trabalho recuperar número de telefone.
- Ok…

E, milagrosamente, me entregou o chip.

- Ah, e o fone!
- Que fone? (Juro que não me lembrei de estar com o fone nos ouvidos)…Ah, claro!

Entreguei o fone.

- Volta calado, não chama a polícia, nem nada. Se não te mato.

Quase digo “Ué?! Acabou? Só isso? Estou com uma carteira no meu bolso, com cartão de crédito e um pouco de dinheiro, certeza?“, mas respondi apenas com um “claro” e fui andando para o trem, quando notei que o cara também ia para o mesmo rumo. Achei melhor comentar…

- Estou indo para o trem, tudo bem?
- Então, é melhor voltar, só não chame ninguém.
- Não se preocupe. Vou dar a volta pela Gomes (de Carvalho), tudo bem?
- Pode ir.

E nos separamos, pensei em dar um abraço ou aperto de mão, mas seria demais. Até coloquei a mão no meu coração pra ver se estava acelerado, mas estava bem calmo. Afinal, numa cidade que é famosa por assaltos mais violentos, me saí bem. E, acreditem, não aumentei em nada esta história. Nem mesmo nos diálogos, os mais esdrúxulos do mundo – levando em consideração que era uma conversa entre assaltante (com uma leve tendência para amigo) e vítima.

Ah, “Perdas e Danos”…

Prejuízo:

Materiais
Celular: R$5 (que estou indo pegar outro novo, de graça, na Claro do Shopping Morumbi)
Cartão MicroSD de 4GB: R$36 (comprei em Manaus, na última vez que fui lá)

Sentimentais
Algumas boas músicas: fácil de recuperar. Tenho todas no meu computador.
Contatos dos amigos: chato de recuperar.
Fotos da Sofia: isso, sim, talvez o único fator realmente negativo desta transação. Mas foram poucas fotos, porque fiz backup semana passada de algumas delas.

Lucro:

Sentimentais, apenas
Celular: após meses a fio de stress, me livrei do abacaxi (valor impossível de calcular).
Eu, conhecido por ser azarado, me descobri sortudo.
Esse ladrão pegou um pepino que ele não faz ideia.

Saldo claramente POSITIVO.

Abraço,
Fagner “lucky bastard” Franco


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