Não é novidade que a criatividade no cinema anda mal das pernas – em especial o americano. Há muitos anos, séries vêm sendo adaptadas, filmes antigos refilmados (alguns com os mesmos enquadramentos) e outros “recomeçados” (os famosos reboots), sem falar nas tantas produções baseadas em best-sellers que chegam todo mês na telona. Até os desenhos animados e personagens de videogame são alvos dos produtores de cinema.
Hoje, depois de duas semanas de férias e sem muito contato com a Internet (trabalho com computador 8 horas por dia, não poderia passar minhas férias perto de outro monitor), ao entrar em um dos sites que sempre abro ao chegar ao trabalho, pude perceber a quantidade absurda de vindouras produções oriundas dos quadrinhos. Claro que isso também não é uma nova – desde o começo dos anos 90 (depois de “Batman” de Tim Burton, lançado em 1989), esse tipo de produção virou mania – mas quando importantes sites especializados têm oito de 10 notícias sobre algum gibi virando filme, é sinal de que os investidores andam escolhendo o caminho mais fácil: recontar uma história que já tem um público garantido.
Não seria um exagero afirmar que alguns roteiristas (os mais conhecidos, pelo menos) da nona arte têm escrito suas obras já pensando numa eventual migração para a sétima. Comecei a ler a alguns meses atrás “Y – O Último Homem” de Brian K. Vaughan (voltei a ler só agora que a Panini relançou a séria aqui no Brasil), e, apesar de realmente muito boa, a história me parece ter sido feita por encomenda para uma adaptação. Não é à toa que a HQ sobre uma praga que elimina todos os homens (ou qualquer mamífero que possua o cromossomo Y) da Terra, exceto o jovem Yorick Brown e seu macaco Ampersand, já está em fase de pré-produção e deve sair em 2011, segundo o IMDB. Vaughan (conhecido também por produzir e roteirizar alguns episódios da série “Lost”) também poderá ver outra de suas obras no cinema, “Ex-Machina”.
Frank Miller (autor de “300”), um dos mais importantes nomes dos quadrinhos, gostou tanto da coisa que virou diretor de cinema. Depois de co-dirigir “Sin City” (baseado em sua própria HQ), topou dirigir “The Spirit” de Will Eisner (este sim, o mais importante quadrinista de todos os tempos), sozinho. O filme foi um fracasso? Foi. Mas isso não vem ao caso. “Hard Boiled”, “Ronin” e mais dois “Sin City” estão em fase de negociação. Estes todos de Miller.
Representando os arrasa-quarteirões, a lista é maior. “Homem-Aranha” tem mais dois na fila. A Warner deve lançar, no mínimo, mais um “Batman” – já que o elenco principal assinou para três produções. A franquia “X-Men” divulga um novo filme-solo de algum de seus mutantes todo dia. Já que falamos em heróis da Marvel, a empresa planeja dominar o mundo até 2012, com todos os principais super-heróis reunidos num filme só – “Os Vingadores”. Até a fraquíssima série “Quarteto Fantástico” vai gerar uma ramificação e veremos um filme do Surfista Prateado. Stan Lee, outro grande das HQs, que criou (ou ajudou a) estes, e mais da metade dos super-heróis, deve ver muitas outras de suas crias no telão.
Do lado das produções mais humildes (ou não), temos “Bone”, que pode virar três filmes animados, “Jonah Hex” com Josh Brolin e Megan Fox já está quase pronto, Brett Ratner (que dirigiu o terceiro “X-Men”) é o responsável por “O Lobo”, o diretor e desenhista Dave McKean, colaborador de Neil Gaiman, está negociando dirigir seu “Cages” (ele mesmo confirmou no Twitter) e até “Black Hole” de Charles Burns vai virar película – com roteiro de Gaiman e direção de David Fincher. Ah, Steven Spielberg e Peter Jackson vão produzir “As Aventuras de Tintin” com um elenco de primeira. A lista não para aí, mas não precisa de mais nomes para provar que os estúdios pensam que só existe uma galinha dos ovos de ouro.
É um nada se cria, tudo se adapta que é difícil encontrar pessoas criativas no cinema americano. Não quero dizer aqui que precisamos de inúmeros Charlie Kaufman, Paul Thomas Anderson, Michel Gondry, Quentin Tarantino, Irmãos Coen… nem inventar roteiros cabeludos como Lars Von Trier, para citar alguns que se preocupam em, vez ou outra (ou sempre), criar novas histórias. Nem prego a desnecessariedade(sic) das produções baseadas em HQs, livros, videogames, desenhos animados ou pequenos contos. Até gosto delas e enquanto me parecerem interessantes, pretendo ir aos cinemas assisti-las. Só me preocupa isso se tornar regra e eu precisar viajar até a Av. Paulista para assistir a outras opções de filmes, aqueles comuns, os do cotidiano, as simples, mas frescas e surpreendentes histórias.
E você aí na frente, todo arrumadinho, de óculos, levantando a mão dizendo “mas e o cinema europeu, latino, oriental, indiano…”, vou te lembrar que a maioria das fitas vindas destes lugares, você precisa ou morar numa capital para poder conferir algumas poucas delas nos cinemas de menor circuito ou de uma boa conexão para baixá-las – isso, quando fica sabendo do filme. Ironicamente, é provável que você saiba do filme depois deste ser refilmado em Hollywood.

Olha só que cenário desesperador; fiz uma pesquisa rápida no IMDb. 5 Keywords. Os resultados foram:
- Remake: 127 filmes até 2013;
- Comics: 105 filmes até 2013;
- Livros: 988 filmes até 2014;
- Games: 11 filmes até 2012;
- Sequências: 216 filmes até 2012.
Isso sem contar os spin-offs, baseados em musicais, baseados em programas de TV, baseados em histórias reais (esses até que são legais hehehe), brinquedos (sim, brinquedos! Transformers, Clue, etc) e até o Facebook já está ganhando adaptação…Enfim, a criatividade é coisa difícil de encontrar no cinema hoje em dia.
Mas tem também um detalhe nisso tudo: A qualidade das produções. Isso sim é o que importa. Você pode adaptar video-games pro cinema. Pode fazê-lo como um Uwe Boll (lixo) ou pode fazer bem feito como…como…é…é, ninguém fez algo que preste com os games. Mas vc pode adaptar HQs como Christopher Nolan ou vc pode chamar o Tim Story pra dirigir. O que importa é a qualidade, afinal, olhando o Top 10 do mesmo IMDb, apenas Pulp Fiction não foi adaptação ou sequencia de alguma coisa. Lá, vemos baseados em Livros, Peça Teatral, Quadrinhos e 3 são sequencias. São filmes indiscutivelmente ótimos, adaptados de algum lugar, com uma qualidade ímpar. Então, pra mim, a questão principal é “Qualidade, cadê você???”
Abs!
That’s right. Enquanto parecerem legais vou assistir…
E belos dados, hein?
O que me entristece mais nessa falta de criatividade é o quanto (a indústria do) o cinema americano consegue diluir os conceitos originais de um filme que fez certo sucesso ao fazer um remake “lucrativo”. Foi assim com [REC] e será assim com Deixe Ela Entar, um dos filmes mais sensíveis e criativos desse início de século que, certamente, vai se transformar numa versão para fãs de Crepúsculo.
Mas é sorte termos diretores como Sophia Copolla, Gondry, Spike Jonze, Noah Baumbach, Tarantino, dentre outros que ousam fazer filmes criativos e autorais.
Quanto aos quadrinhos, acho que alguns foram bem adaptados e até gosto do resultado. Watchmen, apesar de ralhado pela crítica me agradou. The Dark Knight é o ponto alto, Persépolis fica pau a pau com a HQ. algumas franquias, infelizmente, sevem apenas para atender a um filão gerado nessa década que não pode ser desperdiçado. É lucro fácil.
Você conseguiu citar duas coisas que no rascunho que fiz na cabeça iriam entrar. A parte do Deixa Ela Entrar (que ficou de fora, porque o foco era HQ mesmo, mas realmente é de dar raiva esse remake que estão planejando) e a parte das adaptações que deram certo (que não entrou, mas por questão de espaço – ia ficar muito grande). Mas concordo com tudo que disse, até da parte de Watchmen, que gostei apesar de algumas críticas ruins.
Desanimadora realidade.
Mas a busca incessante pelo lucro faz com que a produção de filmes seja cada vez mais limitada a temas que, como vc disse, podem no máximo ficar no campo do “interessante”. Entretenimento puro e simples, muitas vezes alienador e quase inútil, re-aproveitado, no máximo, re-adaptado para suprir as novas expectativas tecnológicas que todos, cada vez mais alienados, buscamos, mas que, na realidade, não nos acrescenta em nada. As boas e inspiradoras histórias, as análises mais profundas da condição humana responsáveis pelas principais transformações sociais ficam cada vez mais esquecidas, e preteridas diante da já mencionada busca incessante do lucro. A indústria do cinema, infelizmente, apenas reflete a condição da sociedade que a criou.