Há exatos 9 meses, comprei um celular. Como estava com o nome “sujo”, tive que usar o nome de minha querida esposa. Pegamos o plano 70 minutos (mais tarde, eu mudaria para o de 90) e, como bônus, paguei incríveis R$5. Surpreso fiquei quando, dias após a compra, descobri que o valor pago havia sido muito alto; o aparelho foi a pior coisa que me aconteceu. Só para constar é um LG, modelo KM380.
Alguns meses atrás, fui na Claro – que, como as outras operadoras, também é um lixo – e descobri que dia 30 de junho (hoje), após nove meses de celular, poderia trocar de aparelho com aquele desconto do plano, sabe? Mas estava com um problema: o que faria com este celular que “sobraria” em minhas mãos? Passar para Tati, minha mulher? De jeito nenhum. E nem a qualquer amigo. Nem colocaria no Mercado Livre, correndo o risco do cara descobrir o pepino que comprou e me entregar a polícia.
Pra minha felicidade, ontem, um dia antes da troca do celular, fui assaltado – pela primeira vez na vida.
- Parado aí, moleque! Não grita, não faça nada.
Ouvi do nada. Era um rapaz mulato, de boné e jaqueta, que só pode ter saído da parede, próximo ao restaurante Gaia na Vila Olímpia. Cheguei a esboçar 2/3 de um sorriso, pensando que era um amigo do trabalho que havia saído minutos antes. No último terço, percebi o que estava acontecendo e voltei o meu rosto a sua feição mais tranqüila possível. Principalmente, quando vi que o moço parecia nervoso e portava uma arma ou algo bem parecido – não era o momento mais oportuno para tirar esta dúvida. Ladrão inexperiente e nervoso + arma + “cliente” também nervoso = merda.
- Calma, calma. O que você quer?
- Me passa a mochila com o notebook!
Como se toda mochila, por default, tivesse um notebook. Retirei minha mochila das costas e entreguei em suas mãos.
- Só tem livro e agenda aí dentro, cara, pode abrir.
- Não quero abrir.
Apressado, apalpou o objeto e, pra minha felicidade, me devolveu. Lá estava um recém-comprado “Nova York – A Vida na Grande Cidade”, de Will Eisner. Apesar de estar comigo e ser meu, é um presente que meu irmão me dará.
- É…é… (sim, ele gaguejou) então, me passa o celular!
- Claro.
Neste momento, me toquei do momento que havia vacilado. No caminho, minutos antes, estava tentando colocar uma música pra ouvir de volta pra casa. “Tentando”, porque o péssimo aparelho, para ler o meu cartão de memória, demorava aproximadamente 5 desligadas, 2 tapas e um Ave Maria. Não havia conseguido colocar a música, mas mantive o fone nos meus ouvidos, só pra atender ligações mesmo. Retirei o cabo do fone e entreguei ao corinthiano.
- Poderia devolver o chip? Dá um trabalho recuperar número de telefone.
- Ok…
E, milagrosamente, me entregou o chip.
- Ah, e o fone!
- Que fone? (Juro que não me lembrei de estar com o fone nos ouvidos)…Ah, claro!
Entreguei o fone.
- Volta calado, não chama a polícia, nem nada. Se não te mato.
Quase digo “Ué?! Acabou? Só isso? Estou com uma carteira no meu bolso, com cartão de crédito e um pouco de dinheiro, certeza?“, mas respondi apenas com um “claro” e fui andando para o trem, quando notei que o cara também ia para o mesmo rumo. Achei melhor comentar…
- Estou indo para o trem, tudo bem?
- Então, é melhor voltar, só não chame ninguém.
- Não se preocupe. Vou dar a volta pela Gomes (de Carvalho), tudo bem?
- Pode ir.
E nos separamos, pensei em dar um abraço ou aperto de mão, mas seria demais. Até coloquei a mão no meu coração pra ver se estava acelerado, mas estava bem calmo. Afinal, numa cidade que é famosa por assaltos mais violentos, me saí bem. E, acreditem, não aumentei em nada esta história. Nem mesmo nos diálogos, os mais esdrúxulos do mundo – levando em consideração que era uma conversa entre assaltante (com uma leve tendência para amigo) e vítima.
Ah, “Perdas e Danos”…
Prejuízo:
Materiais
Celular: R$5 (que estou indo pegar outro novo, de graça, na Claro do Shopping Morumbi)
Cartão MicroSD de 4GB: R$36 (comprei em Manaus, na última vez que fui lá)
Sentimentais
Algumas boas músicas: fácil de recuperar. Tenho todas no meu computador.
Contatos dos amigos: chato de recuperar.
Fotos da Sofia: isso, sim, talvez o único fator realmente negativo desta transação. Mas foram poucas fotos, porque fiz backup semana passada de algumas delas.
Lucro:
Sentimentais, apenas
Celular: após meses a fio de stress, me livrei do abacaxi (valor impossível de calcular).
Eu, conhecido por ser azarado, me descobri sortudo.
Esse ladrão pegou um pepino que ele não faz ideia.
Saldo claramente POSITIVO.
Abraço,
Fagner “lucky bastard” Franco






Apesar da pretensão do título do post, que lembra aquelas críticas sérias, vou apenas contar minhas impressões sobre “Duplicidade”, sessão que peguei ontem às 22h, no Cinemark Villa Lobos.