
“And here we go!”. Heath Ledger, na mais perfeita encarnação do Coringa, pronuncia a frase no último ato de “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. E com as mesmas palavras e com este filme inauguro o blog. Nada mais óbvio e justo, a adaptação do meu super-herói favorito é o melhor longa do ano e eleva o nível do termo “filme de super-herói” a um grau altíssimo em todos os sentidos.
Poucas produções criaram tanta ansiedade em seus fãs. Desde o anúncio de um segundo longa dirigido por Christopher Nolan (“O Grande Truque”) sobre o homem-morcego, os cinéfilos de plantão acompanharam por meio de sites, revistas e noticiários qualquer novidade sobre a película. Para aumentar ainda mais a expectativa, a Warner criou uma das maiores campanhas de marketing de todos os tempos, com direito a sites virais e interatividade com fãs nunca vista antes.
Felizmente, qualquer expectativa, por maior que seja, será superada. “O Cavaleiro das Trevas” merece todos os elogios arrancados nas últimas semanas, desde sua primeira exibição. Não é um simples filme de super-herói, é um drama policial com todas as letras, com direito a violência (nenhuma gratuita), corrupção, vilões psicóticos e metáforas de primeira em todos os seus (nada extensos) 142 minutos. Tamanha sua grandeza, é injusto colocar a fita ao lado de outros heróis, como Homem-Aranha, X-Men ou mesmo o recente Homem de Ferro. Como já foi dito, seria mais certo colocá-lo junto à outros grandes filmes como “Fogo Contra Fogo” (o próprio diretor assumiu a inspiração), “Seven” e “Clube da Luta”. Já com “O Poderoso Chefão”, o filme de Nolan se assemelha apenas no envolvimento da máfia em uma das (muitas e bem construídas) subtramas.
Como havia sido avisado ao fim do primeiro filme, Batman (Christian Bale) agora enfrenta o seu arquiinimigo Coringa. No lugar do “palhaço” representado por Jack Nicholson, o Coringa de Ledger prega a anarquia e o caos. O palhaço do crime agora não quer dinheiro ou dominar o mundo, apenas implanta o medo, a desordem e tenta provar a teoria de que qualquer um, mesmo o mais íntegro, sob pressão pode se perverter (fragmentos da HQ de Alan Moore, “A Piada Mortal”). Do outro lado, está Harvey Dent, representando o lado da lei tal qual o Cruzado de Capa. Sua incorruptibilidade é tão grande que o próprio homem-morcego aposta no corajoso promotor público todas as suas moedas, quando percebe ser possível combater o crime sem ter de se mascarar para isso.
Escrito por Nolan e seu irmão Jonathan, a partir da história do primeiro junto com David Goyer, o roteiro não perde força nem em suas inúmeras subtramas. Nada é de graça, tudo está em seu lugar. Até a investida discreta e bem sucedida no drama familiar de Gordon (Gary Oldman, excelente), ou na paixão de infância de Wayne, na corrupção policial e no namoro de Dent. Como havia acontecido em “Batman Begins”, Nolan mantém a incrível sensação de realidade. É incrível o realismo das cenas de ação, dos personagens e suas vulnerabilidades, da direção de arte (note o escritório de Dent) e até da armadura do herói (mesmo para sua melhoria, é apresentado um bom motivo).
Esse realismo não seria nada, não fosse o elenco perfeito. Bale, ao contrário de Michael Keaton (que sumiu perante Nicholson, no filme de Tim Burton), consegue surpreender, seja como o herói, o playboy Bruce Wayne, o apaixonado por Rachel Dawes ou o amigo de Alfred e Lucius Fox (os ótimos Michael Caine e Morgan Freeman voltam aos seus papéis). O corajoso e trágico Dent é interpretado com a emoção pontual de Aaron Eckhart (“Obrigado por Fumar”). Seu drama até se tornar o vilão Duas-Caras é a força motriz da película. E Ledger, encontrado morto em janeiro, cria um dos melhores vilões do cinema. Ele traz medo desde sua aparição (impressionante, na primeira cena do filme), passando pelo já clássico interrogatório com o Batman até o clímax do filme. Mesmo na sua ausência, causa temor por não se saber onde está e o que está planejando. Triste fim para um ator tão novo (28 anos) que, no seu auge, teve a carreira encerrada de maneira tão trágica.
Nunca mais, depois de “Batman – O Caveleiro das Trevas”, as adaptações de quadrinhos serão iguais. Dificilmente, outra produção do estilo chegará à altura da perfeição deste realista e completo longa. Impecável. Nolan constrói um épico sobre a natureza humana, sobre a maldade e seus limites, sobre a bondade e seus limites, sobre a verdade, sobre preço da verdade, sobre aquilo que não tem preço, sobre preconceito (é possível enxergar vestígios do 11 de setembro), enfim, sobre as escolhas e suas conseqüências.