Até hoje, não sei muito bem de onde vinham aqueles gibis que eu lia quando era mais novo. Não sei se do meu irmão, se doado por alguém, se roubado, se emprestado. Fato é que não me lembro de, pequeno, me encontrar numa banca comprando “Turma da Mônica”, por exemplo. Além dos gibis (sempre bons) do Mauricio de Sousa, lia Zé Carioca, Tio Patinhas… Mas me ver lendo gibi naquela época não era assim tão freqüente, acontecia mais em viagens – minha família não parava num lugar por muito tempo – que só não eram intermináveis graças a essas leituras. Lembro de ter alguns em casa também, mas não era comum. Quando adolescente, sempre passava nas bancas e namorava alguma HQ, mas não tinha coragem de pedir dinheiro aos meus pais para isso. Atribuo a este fator o motivo de ser apenas um grande apreciador – e não um grande conhecedor – da nona arte.
Anos mais tarde, mais especificamente quando comecei a trabalhar, passei a investir pequena parte do meu dinheiro nisso. Começando com Batman (meu preferido) e Superman – sim, o básico de alguns da minha geração. Passando por algumas séries da DC (e suas ramificações), poucas coisas da MARVEL e outras histórias que me pareciam interessantes. Até que um dia me deparei com uma suástica e dois ratinhos: “MAUS”, de Art Spiegelman. Parei, peguei, folheei, vi a arte, li alguns quadros e, pronto, se tornou objeto de desejo. A saga completa é relativamente cara e, por algum motivo do além, mesmo quando eu tinha dinheiro, postergava a compra, como se fosse um sinal, “ainda não é o momento certo, espere, vai chegar sua hora”. Enquanto não chegava, li Alan Moore (dentre os dele, “Watchmen”, uma aula sobre super-heróis), comecei “Sandman” de Gaiman algumas vezes (até hoje, não terminei), li Eisner – qualquer obra do mestre merece um post –, passei pelo surpreendente “Fun Home”, li dos leões de Bagdá de Brian K. Vaughan e iniciei também a saga de Yorick, entre outros quadrinhos.
Outubro de 2009. Manhã de domingo. Último dia da feira da Comix em São Paulo. Eu, com 25 anos nas costas. Não podia mais esperar. Oportunidade perfeita. Eu não tinha medo de não encontrar, afinal, qualquer um que se diz amante dos quadrinhos já deve ter visto o holocausto pelos olhos do judeu polonês Vladek Spiegelman. Não estava errado, lá estava ele, “MAUS”. Na pré-seleção, tática ensinada pelo amigo Wesley Modro (este sim, um grande conhecedor dos quadrinhos) para ajudar a escolher entre tantas opções, eu já me comunicava com o livro: “calma, não se preocupe, hoje você vai pra casa comigo”. E não o decepcionei. Trouxe-o, numa cesta junto com “1602”, “Sábado dos Meus Amores”, “Epiléptico” volumes 1 e 2, “Y – O Último Homem” e “Nova Hélade”, do brasileiro Cadu Simões.
A HQ, única a receber um prêmio Pulitzer, em 1992, começa com o pequeno Art Spiegelman, roteirista e desenhista da obra, chegando aos prantos para o pai, após uma desavença com os amigos. “E-eu caí e meus amigos foram embora s-sem mim” chora o filho. “Amigos? Seus amigos? Se trancar elas em quarto sem comida por uma semana aí ia ver o que é amigo”, responde o pai, ainda com sotaque. A frase, à princípio, exagerada, também serve para dar o tom à história que se segue. Distantes há muitos anos, filho, Art (sim, o autor), vai para casa do pai, Vladek Spiegelman, após uma série de acontecimentos trágicos, ainda com a ideia de escrever sobre a vida do velho, especialmente na guerra. Então, somos apresentados a história do pai, desde o início do namoro com Anja, sua amada, os tempos na Polônia, o casamento, passando pela fuga, prisão e fim da Segunda Guerra Mundial.
Como o próprio Vladek diz no início, para contar esta história seriam necessários muitos livros, mas Spiegelman, sabiamente, escolhe os quadrinhos e uma excelente narração que nunca deixa o leitor perder o interesse, nos mostrando não só os horrores da guerra, em especial, os absurdos dos campos de concentração, mas também o reflexo deste vergonhoso acontecimento na vida de todos os sobreviventes – e, claro, nos filhos destes.
Outro acerto do autor foi a arte, toda em preto e branco, o que deixa as páginas ainda mais interessantes, pois muito, de um tema que por si só é violento e pesado, fica por conta da mente do leitor – os traços, aqui, servem apenas para guiar, e não limitar, a imaginação. Em outra sacada genial, Spiegelman representa todas as etnias com rostos de animais; ratos (daí, MAUS, rato em alemão) para os judeus, gatos para alemães, americanos como cachorros, poloneses como porcos, para citar os mais presentes.
O roteiro, claro, é o maior destaque. Spiegelman, quadrinista vindo do cenário underground americano, varia entres os mais díspares sentimentos e temas; violência nos campos de batalha e de concentração, romance, a complicada relação com o pai e deste com sua mulher, a avareza, a perda de um filho e suas consequências, o preconceito (mesmo daqueles que sofrem com ele), a felicidade nas pequenas coisas e ainda alivia com momentos cômicos, quase sempre com humor negro (já perto do final, Vladek discutindo com o gerente de um supermercado é impagável). Não será difícil em uma página se ver chorando (o casal separado no campo de concentração é de apertar o coração) e, na próxima, gargalhar, como na página 135 em uma conversa que envolve até o nome de Walt Disney. Injusto também não lembrar do suspense presente em cada fuga do astuto Vladek, um estrategista nato, que sabia escolher o momento de ficar em grupo e o momento de lutar sozinho.
A comparação com outra grande obra sobre o holocausto “A Lista de Schindler”, é inevitável, inclusive em personagens e situações, como as da câmara de gás. Obrigatória aqui a informação de que o filme, de 1993, veio após a graphic novel. Elogiar esta obra-prima, não só dos quadrinhos, mas da literatura mundial é quase chover no molhado, mas para quem ainda não leu ou pretende (re)começar a ler quadrinhos algum dia, esta é uma leitura obrigatória e, sim, ainda atual. Somos nós, humanos, ali, não ratos, porcos, gatos e cachorros, mas homens. Mesmo num tema já mostrado de diversas maneiras, “MAUS” se destaca pela realidade e consegue a proesa de ser imparcial em boa parte do livro, quando não vemos ali diferença do nazista que atira na cabeça para um judeu que trai toda uma família. Não há vilões, não há heróis, apenas humanos.
Vale cada capítulo, cada página, cada quadro e merece cada revisitada.